Tradição

Na origem da palavra, tradição tem um sentido religioso. O Robert define-a como “uma doutrina ou uma prática, religiosa ou moral, transmitida de século para século, pela palavra ou pelo exemplo”. Depois, no domínio do conhecimento, dos costumes, das artes etc., “é uma maneira, ou um conjunto de maneiras de pensar, de fazer ou de agir, que é uma herança do passado”. A tradição é, pois, um produto do passado que tem uma atualidade. O Dictionnaire ethnologique dá, assim, de tradição, a definição seguinte: “o que, de um passado persiste no presente, onde é transmitido e continua a ser atuante e aceito por aqueles que a recebem e que, por sua vez, com o passar das gerações, a transmitem”. A tradição já não é, portanto, encarada pelas ciências sociais como um arcaísmo que se imporia aos indivíduos. Aparece, antes, como uma aprendizagem e, portanto, como uma reapropriação. R. Boudon e F. Bourricaud afirmam claramente: “A tradição não é um passado irredutível à razão e à reflexão, que nos constrange com o seu peso, é um processo pelo qual se constitui uma experiência viva e adaptável. A tradição não pode ser tida por um processo de ajuste estritamente mecânico. O mínimo que é possível fazer, neste caso é, como Piaget, falar não só de adaptação a um modelo, mas de assimilação do dito modelo, que se acha assim afetado e eventualmente redefinido, nuns ou noutros casos dos seus traços, pelo esforço do aprendiz”. A tradição foi redescoberta pela sociologia histórica. Com efeito, como escreve Bertrand Badie, “longe de constituir um ponto de partida do qual se desligam as sociedades à medida que se vão modernizando, a tradição, aparece, pelo contrário, como um suporte essencial da mudança social”. O estudo do desenvolvimento das nações depois de Tocqueville, permitiu também mostrar que nenhuma sociedade muda radicalmente. Cada fase de mudança comporta elementos de estabilidade, políticos, culturais ou sociais, sobre os quais nos podemos apoiar para iniciar os movimentos novos. “Redescobrindo esses elementos de permanência, a Sociologia Histórica reavalia o conceito de tradição para fazer dele, assim, uma componente ativa da modernização, estruturando a estratégia das elites e organizando a modernidade em função de uma conservação das estruturas profissionais.