Sociedade individualista de massas

Na sociedade contemporânea, coabitam dois dados estruturais, ambos normativos mas contraditórios: a valorização do indivíduo, em nome dos valores da filosofia liberal e da modernidade; a valorização do grande número, em nome da luta política a favor da igualdade. A economia de mercado assegurou a passagem de um a outro, alargando continuamente os mercados até à instauração da sociedade de consumo de massas, onde encontramos as duas dimensões, a da escolha individual e a da produção em grande número. A sociedade individualista de massas é permanentemente obrigada a gerir estas duas dimensões antinômicas: o indivíduo e as massas, ambos ligados às grandes tradições democráticas europeias mas que alteram os equilíbrios socioculturais anteriores.

A crise do elo social resulta da dificuldade em achar um novo ponto de equilíbrio no seio deste modelo de sociedade. Os laços primários, ligados à família, à aldeia, ao ofício, desapareceram, e os laços sociais, ligados às solidariedades de classe e de pertença religiosa e social também afrouxaram. Resultado: já não há grande coisa entre as massas e o indivíduo, entre o número e as pessoas. Já não há muitos laços. É neste contexto de ausência de gradações socioculturais entre o nível da experiência individual e o da escala coletiva que se situa o interesse da televisão. Ela oferece, precisamente, um laço estruturante entre estas escalas e os seus espaços. Nenhuma das referências unitárias que organizavam antigamente o espaço simbólico das nossas sociedades é estável hoje em dia. Em toda a parte dominam dualidades contraditórias, cuja consequência é uma certa fragilização das relações sociais. Há, como vimos, o par indivíduo-massas, de finalidades evidentemente contraditórias; a oposição igualdade-hierarquia, onde a existência da igualdade não exclui, de forma nenhuma, a realidade de uma sociedade bastante imóvel e hierárquica; o conflito abertura-fechamento, ligado ao fato de a abertura e a comunicação se terem tornado referências de uma sociedade sem grande projeto depois da queda do ideal comunista; o desfasamento entre a elevação geral do nível dos conhecimentos e a realidade maciça de um desemprego desqualificante. O todo num contexto de explosão das estruturas familiares; de desiquilíbrios ligados aos movimentos de emancipação das mulheres; de crise dos modelos de trabalho onde as identidades camponesas e operárias desapareceram a favor de um terciário proteiforme; da dificuldade em fazer do meio urbano um quadro de vida aceitável. O tributo à liberdade paga-se caro, como se paga caro o aparecimento da sociedade de massas. em nome da igualdade. Mutações tanto mais difíceis de integrar quanto, por outro lado, os cidadãos, graças aos meios de massa, são projetados para o mundo exterior. Cada um a partir da sua cozinha ou da sua sala de jantar, dá várias vezes ao dia a volta ao mundo, com a televisão. E, para completar o panorama, não esqueçamos que essa afirmação dos direitos se acompanha de uma recusa das hierarquias, dos códigos e das regras impostas pelas múltiplas instituições que são a família, a escola, o exército, a Igreja. Todos falam mais dos seus direitos que dos seus deveres. Cada qual é livre, mesmo se o resultado é o de uma discreta mas obsessiva solidão explicando, também aí, o regresso desta problemática do elo social.