A noção de sociedade civil é ambígua. Conheceu na sua história uma inversão completa de sentido. Da Antiguidade ao século XVII, a sociedade civil opõe-se ao estado de natureza, significa qualquer sociedade politicamente organizada. Vindos do latim, os termos civitas, societas civilis ou, ainda, república continuarão sinônimos durante muito tempo. Foi somente depois da Revolução Francesa e da concessão unitária do Estado-Nação que esta impôs que a noção de sociedade civil se opôs à de Estado, para significar o que tem que ver com o domínio do privado, da sociedade sem o Estado. As marcas desta ambiguidade permaneceram no vocabulário. Os adjetivos “civil” e “cívico” têm a mesma raiz. Contudo, os direitos cívicos dizem respeito àquele que se associa ao poder do Estado e participa na comunidade política, enquanto que os direitos civis definem as obrigações que regem as relações entre indivíduos na sua vida privada. “O conceito de sociedade civil acha a sua formulação sistemática em 1821, nos Princípios da Filosofia do direito de Hegel. Ao introduzir este conceito, Hegel dava conta da mudança mais significativa da modernidade política: a separação da “vida civil” e da “vida política”, da sociedade e do Estado; mudança concomitante à revolução industrial (aparecimento da cultura burguesa, importância e autonomia acrescida da esfera econômica) e politicamente consagrada pela queda do Antigo Regime.”
Hoje em dia, Dominique Colas propõe uma definição operativa da sociedade civil. “Ela designa a vida social organizada segundo a sua própria lógica, nomeadamente associativa, que asseguraria a dinâmica econômica, cultural e política.”
As variações históricas do conceito mostram até que ponto a sociedade civil é uma noção conflitiva e ideológica. Nos nossos dias reapareceu, na sequência da crise do Estado-Providência e está investida de múltiplas conotações positivas. Aparenta-se então, segundo Francisco Rangeon, a um mito político. “Antes de ser um conceito ou uma ideia, a sociedade civil evoca, em primeiro lugar, um conjunto de valores positivos: a autonomia, a responsabilidade, o fato de os indivíduos se assumirem a si próprios e aos seus problemas. Pela sua dimensão coletiva, a sociedade civil parece escapar aos perigos do individualismo e incitar à solidariedade. Pela sua dimensão civil, evoca a emancipação da tutela do Estado mas, também, de valores mais afetivos como a intimidade, a familiaridade etc. Explica-se, assim, a reativação recente do par sociedade civil-estado.”
