Modernidade

O adjetivo moderno, a partir do qual foi forjado, no século XIX, o termo modernidade, designa aquilo que pertence a uma época recente. Pode ter o sentido de atual, de contemporâneo e opõe-se a velho, a antigo. Desde a Querela dos Antigos e dos Modernos, no século XVII, que este termo está carregado de uma conotação positiva. Os detentores do moderno partem do pressuposto de que existe um progresso da humanidade. A modernidade, a nível sócio-histórico designa, segundo Gérard Guest, o fato histórico principal que afeta, no final da Idade Média e na origem do Renascimento, todas as formas de cultura e todas as formas de existência na Europa. O homem europeu funda aí – por oposição ao homem e ao homem medieval – as suas formas de vida próprias, numa nova partilha da referência à tradição. Essa partilha torna-se possível graças à constituição de uma memória histórica, filológica e hermenêutica e a referência ao progresso, que tornam possível o desenvolvimento das ciências e das técnicas, a evolução acelerada do movimento das forças produtivas ao serviço de um domínio sem precedentes dos processos naturais. Também se torna possível pela edificação política do Estado Moderno, a referência filosófica aos valores do humanismo e da razão.

Alain Touraine descreve os diferentes elementos filosófico-políticos que compõem essa modernidade: uma revolução do homem esclarecido contra a tradição, a sacralização da sociedade, a submissão à lei natural da razão. A modernização, na sua aceitação ocidental, é obra da própria razão e portanto, acima de tudo, da ciência, da tecnologia e da educação, e as políticas sociais de modernização devem ter, como único objetivo libertar o caminho da razão suprimindo as regulamentações, as defesas corporativistas ou as barreiras alfandegárias, criando a segurança e a previsibilidade de que o empresário necessita e formando gestores e operadores competentes e conscienciosos. O Ocidente viveu e pensou a modernidade, pois, como uma revolução. A razão não conhece nenhum dado adquirido; faz, pelo contrário, tábua rasa das crenças e das formas de organização social e política que não assentem numa demonstração de tipo científico. Além disso, a modernidade gera, devido à secularização, um novo pensamento político, que substitui, para a Sociedade, Deus como principio de julgamento moral. “A ideia de que a sociedade é fonte de valores, de que o bem é o que for útil à sociedade e de que o mal é o que impede a sua integração e a sua eficácia, é um elemento essencial da ideologia da modernidade. Para deixar de se submeter à lei do pai é preciso substituí-la pelo interesse dos irmãos e submeter o indivíduo ao interesse da colectividade”. Enfim, “o pensamento modernista afirma que os seres humanos pertencem a um mundo governado por leis naturais que a razão descobre e às quais está, também ela, submetida. E identifica o povo, a nação, a um corpo social que funciona, também ele, segundo as leis naturais e que deve desembaraçar-se das formas de organização e de domínio irracionais que tentam fraudulentamente fazer-se legitimar pelo recurso a uma revelação ou a uma decisão sobre-humana.”

A modernidade é, antes de mais, um instrumento crítico. Mas as armas da crítica viram-se contra ela. G. Guest descreve a modernidade como “a época da interpretação da interpretação”. Numerosos pensadores, sendo o mais radical Nietzsche, denunciarão os malefícios da ideologia modernista. Freud provocou um questionamento radical do ideal de homem como ser racional. Depois dele, a escola de Frankfurt, onde os trabalhos de Michel Foucault puseram em evidência a forma como a modernidade é antinômica da ideia de progresso do bem-estar, sublinhando os processos de alienação gerados pelas sociedades modernas. A decadência da ideologia e das práticas modernistas, nomeadamente na criação estética, deu origem ao conceito de pós-modernismo ou de pós-modernidade. Jean François Lyotard considera-a como uma “hipermodernidade”, no sentido em que as vanguardas se esgotam em si na sua busca incessante da modernidade. A pós-modernidade significa, sobretudo, o desaparecimento de qualquer modelo de sociedade, em que os agentes estão virados para si próprios, para a satisfação das suas necessidades narcísicas, a identidade social é fornecida por aquilo que se consome, mais do que por aquilo que se é. O pós-modernismo remete para uma sociedade sem história, no sentido em que já não há grandes projetos e em que a autorreflexão, para não dizer o autodesprezo, substitui qualquer perspectiva historicista.