Cultura

A palavra é imensa, as referências incontáveis. Trata-se aqui de a situar em relação à comunicação.

1) Os três sentidos da palavra

  • O sentido clássico francês remete para a ideia de criação, de obra. Pressupõe uma capacidade de definição daquilo que, num momento dado, é considerado como patrimônio, saber, criação e conhecimento, entendendo-se que as definições evoluem com o tempo.
  • O sentido alemão está próximo da ideia de civilização e integra os valores, as representações, símbolos e patrimônio tal como são partilhados por uma comunidade num momento dado da sua história.
  • O sentido anglo-saxão é mais antropológico e tem em conta as maneiras de viver, os estilos, os saberes quotidianos, as imagens e os mitos.

No passado, a questão era, afinal, a oposição entre cultura de elite e cultura popular. Quando se falava de cultura, tratava-se da primeira. tanto nas obras como nos gostos, na educação e na comunicação. Quanto à cultura popular, tratava-se da cultura do grande número, mas sem valor cultural real. Foi preciso esperar pelo século XIX e pela luta de classes para valorizar essa cultura popular. Num século. esta situação modificou-se consideravelmente. Hoje em dia já não há duas culturas, de elite e popular, mas sim quatro: cultura de elite, cultura do grande público, cultura popular e cultura particularizante (minorias éticas ou religiosas). A grande mudança foi o aparecimento desta cultura média, do grande público, maioritária, geral, em todo o caso daquela que é mais numerosa nas nossas sociedades, a que cada um pertence de qualquer modo mesmo quando adere, além disso, a uma outra forma cultural. A causa do aparecimento desta cultura média do grande público resulta da conjunção de três fatores. Em primeiro lugar, a democratização, que alargou o círculo dos públicos cultivados e favoreceu esta cultura de grande público, nomeadamente com o estabelecimento de novas políticas culturais de que os grandes museus de massas constituem o mais belo símbolo (o Louvre, o Centro Pompidou, La Villette). Em seguida, a subida do nível cultural por meio da educação. Por fim, a sociedade de consumo e a entrada da cultura na era da indústria. Assim se criou essa cultura do grande público que os meios, por sua vez, favoreceram e distribuíram. O resultado é uma contradição típica da sociedade individualista de massas onde existe, simultaneamente, uma cultura que valoriza o individuo e uma cultura do grande número. A consequência? Assistimos a uma diversificação real das culturas e à sua legitimação, ao mesmo tempo que a um desinteresse em relação à cultura de massas que é, no entanto, uma conquista recente e frágil depois de numerosas décadas de lutas.

2) De duas para quatro formas de cultura

  • A cultura de elite. Antigamente estava em posição dominante; sente-se hoje despojada deste lugar hegemônico pelo aparecimento dessa cultura média ligada ao consumo, ao desenvolvimento dos tempos livres, das viagens e da indústria cultural.
  • A cultura média. Tem as suas próprias normas, valores e barreiras e situa-se menos em posição de inferioridade em relação à cultura de elite do que a cultura popular do passado. A novidade é esta cultura do grande número que traduz todos os movimentos de emancipação política, econômica e social surgidos no último meio século. Ocupa em volume, o lugar da cultura popular de antigamente, mas com legitimidade. É simultaneamente a música, o cinema, a publicidade, os meios, as viagens, a televisão, a moda, os estilos de vida e de consumo. É a cultura moderna, o espírito do tempo, que suscita o sentimento de pertença à sua época. De não ser excluído. É uma das forças essenciais do elo social.
  • A cultura popular acha-se desfasada, partilhada por muito menos indivíduos do que há cinquenta anos, devido às mutações sociais, à diminuição da população camponesa e operária, à urbanização maciça e ao crescimento da cultura dos meios de comunicação. Ligada, no passado a um projeto político, muitas vezes de direita, sofre hoje, nas suas formas ideológicas, o refluxo de toda a problemática da classe operária e da desvalorização dos meios populares.
  • As culturas particulares. Incluídas no passado na cultura popular, têm tendência para se distinguir em nome do direito à diferença (mulheres, regiões, minorias). Sem atingir números consideráveis põem, no entanto, em causa, a cultura popular no sentido em que esta deixou de ter o monopólio da legitimidade popular ou o poder de integração simbólica que esta tinha antes.

As culturas particulares, em nome deste direito à diferença reduzem a referência universal da cultura popular. Esta, no passado, unificava os diversos meios sociais. Hoje, não só as distâncias sociais são maiores, não só a classe média e a cultura média tomaram o lugar e a legitimidade da cultura popular como, além disso, esta última se encontra um pouco relegada para a gestão e a valorização dos patrimônios populares. Com efeito, as culturas particulares, orgulhosas da sua diferença, desejam tanto distinguir-se da cultura média como da cultura popular. Neste sentido, há uma real explosão de culturas. De fato, as quatro formas de cultura coabitam e interpenetram-se nomeadamente graças ao papel essencial dos meios de comunicação em massa. Podemos mesmo dizer que uma boa parte da população é multicultural, no sentido em que cada indivíduo pertence, sucessivamente e, às vezes, simultaneamente, a diversas formas de cultura. Tanto mais que a cultura de elite, apesar das suas afirmações, se abriu muito à comunicação e que a cultura de massas se auto-diferencia tanto quanto a cultura popular. Enfim, existe um grande interesse pelo aparecimento destas culturas particulares, ligadas ao movimento de afirmação das comunidades. O paradoxo é que as relações de força entre estas quatro formas de cultura são bastante visíveis, graças aos meios de comunicação em massa, ao mesmo tempo que esta visibilidade torna a sua coabitação mais fácil. Age-se como se a luta de culturas estivesse eminente no seio das democracias quando, na realidade, nunca houve tanta tolerância para com as diferentes formas de cultura, nem tanta visibilidade, coabitação, e até, às vezes, interpenetração. E isto graças a comunicação em massa generalista que, ao assegurar uma certa visibilidade a essas culturas, contribuem, também, para a sua coabitação. A referência à ideia de cidadão multicultural não significa a instauração de um multiculturalismo. Este é impossível de fato. A afirmação traduz a ideia de que, na realidade, um indivíduo acede, nomeadamente através dos meios, a diversas formas de cultura ou, em todo o caso, sabe que elas existem. O que constitui a grande diferença em relação ao passado, em que cada qual permanecia no seu meio cultural. Se as barreiras culturais continuam a existir são, pelo menos, mais visíveis, o que já é um progresso.

A aculturação remete para as modificações que afetam duas culturas em contato. O multiculturalismo remete para a coexistência de culturas diferentes no mesmo território.