A comunicação é sempre um intercâmbio entre um emissor, uma mensagem e um receptor. Os dois sentidos da palavra explicam a coabitação permanente entre a dimensão normativa e a dimensão funcional. Etimologicamente, essa palavra significa pôr em comum, partilhar (communicare – 1361 – lat.). É o sentido de partilha que remete para aquilo que todos esperamos da comunicação: partilhar alguma coisa com alguém. Mas o segundo sentido, mais recente, surgido a partir do século XVII, remete para a ideia de difusão e fará eco ao desenvolvimento da livraria e, depois, da imprensa. Evidentemente, difundir será concebido com o fim de partilhar, mas progressivamente, os dois sentidos dissociar-se-ão, graças ao volume de documentos e de informações difundidas. A difusão já não será naturalmente, a condição da partilha.
A mesma diferença existe entre comunicação normativa e comunicação funcional. A comunicação normativa remete para o ideal de partilha. A comunicação funcional desenvolveu-se muito mais há um século para cá, com os suportes da escrita, do som, da imagem e dos dados informáticos. Remete mais para as necessidades de trocas no seio das sociedades complexas, para a divisão do trabalho e para a abertura das sociedades umas em relação às outras. Desde que haja especialização das atividades, há intercâmbio, logo desenvolvimento de comunicações funcionais que preenchem uma função prática sem ter, por isso. outros significados. Mas a sociedade ocidental continua a valorizar. simultaneamente, o ideal da partilha. Compreende-se que o desenvolvimento da comunicação funcional se faça por referência à comunicação normativa. Essas são as duas dimensões quase ontologicamente ligadas da comunicação mas, evidentemente. contraditórias, uma vez que as condições de uma partilha real se afastam à medida que se trata da comunicação de um grande número de bens e de serviços destinados a um grande número de pessoas que não partilham forçosamente os mesmos valores. Encontramos também esta ambiguidade da comunicação na informação. Informação tem dois sentidos. O primeiro remete para a etimologia (informare – 1190 – lat.), que significa dar uma forma; modelar, ordenar, dar um significado. O segundo, mais tardio (1450), significa pôr alguém ao corrente de qualquer coisa. E é a partir deste último que se fará a ligação entre informação e acontecimento. A informação consistirá em relatar o acontecimento, ou seja, em dizer tudo o que perturba e modifica a realidade. Chegamos, então, ao duplo sentido de informação. É o que dá forma; o que dá um sentido, que organiza o real e, ao mesmo tempo, é o relato do que surge e perturba a ordem. Esta ambiguidade da informação faz eco à da comunicação.
